discografia

Não tente compreender

Direção e produção musical: Djavan
Direção e produção executiva: Marcia Alvarez
Assistente de produção musical: Max Viana
Gravado de outubro a dezembro de 2011

Estúdio Biscoito Fino
Técnico de gravação: Fernando Prado
Assistente de gravação: Mino Alencar

Estúdio Em Casa
Técnico de gravação: Fernando Rebelo

Estúdio Corredor 5
Técnico de gravação: Renato Alscher
Mixado no Estúdio Em Casa
por Fernando Rebelo
Masterizado no Estúdio Batmastersom
por Luiz Tornaghi
Projeto gráfico: Safra 7
Fotos: Eny Miranda
Maquiagem: Alice Fonseca
Cabelo: Arlete Araújo e Luiza das tranças

Uma realização Biscoito Fino 2012
Direção Geral: Kati Almeida Braga
Direção Artística: Olivia Hime
Direção Executiva: José Celso Guida
Coordenação de produção: Luciene Caruso
Label Copy: Lidiane Teixeira
Departamento Jurídico: Nabuco Advogados

Todos os arranjos por Djavan, exceto "depois cura" coletivo por Theo Zagrae, Tavinho Menezes, Renato Fonseca e Arthur Maia e "Que pena, que pena..." por Arthur Maia.

faixas

  1. 1 - Namora comigo
  2. 2 - Surpresa
  3. 3 - Daquele jeito
  4. 4 - Depois cura
  5. 5 - Que pena, que pena...
  6. 6 - Não tente compreender
  7. 7 - Itinerário
  8. 8 - Reversos da vida
  9. 9 - Serei eu?
  10. 10 - Eu te ofereço
  11. 11 - Os sinais
  12. 12 - Demorou
  13. 13 - Zero muito
  14. 14 - Vai saber

A MÚLTIPLA MART’NÁLIA
(Geraldo Carneiro)

Não vou contrariar o título do novo CD de Mart’nália, embora ele seja com-preensível tanto em suas músicas como em seus conceitos. Imagino-o como um passeio de nossa heroína pelo Rio de Janeiro que ela tanto ama, e pelo qual sem-pre foi correspondida. Se o passeio-filme de Mart’nália tivesse roteiro, seria mais ou menos assim:
Em “Namora Comigo”, de Paulinho Moska, o cenário é a praia do Leblon. O menino espera a menina (ou vice-versa) e faz fantasias românticas. Enquanto ele a vê chegando à praia, com seu imaginário biquíni de bolinha, a música gruda feito chiclete na memória do seu ouvinte/ espectador. Como se não bastasse, o contra-ponto da voz de Mart’nália com os vocais de Djavan sugere que a imagem efême-ra desse encontro à beira-mar vai perdurar até três dias depois do apocalipse.
“Surpresa”, de Mart’nália, Arthur Maia e Ronaldo Barcellos, é um road-movie à moda carioca, que se passa em muitos cenários. Digamos, desde o Carioca da Gema até o Clube dos Democráticos. É o elogio do hedonismo do Rio de Janeiro, da capacidade deste balneário de celebrar a vida em todos os seus momentos, sobretudo sob forma de samba.
“Daquele jeito”, de André Carvalho, é a história de uma pessoa assombrada, cheia de visões metafísicas sobre o tempo e a eternidade. É como um filme-cabeça do Wim Wenders em que os anjos dizem coisas solenes sobre a vida e a morte, mas de repente aparece uma trapezista esplendorosa e a gente descobre que só interessa o amor.
“Depois cura” é o contrário disso: uma história de amor ao som de uma ban-da de pífaros. O que nos sugere que, apesar dos pesares, seremos felizes. E de-pois novamente infelizes. De quebra, alguns versos magníficos de Lula Queiroga: “Amar é remédio de louco/ pra recuperar a razão.”
“Que pena, que pena”, parceria de Mart’nália e Mombaça, tem um refrão tão adorável que poderia ser repetido como um mantra por quinze dias. E se arremata com um texto de rap-rapsódia, à maneira de um recitativo de Vinicius de Moraes, sem medo de amar e de falar de amor.
“Não tente compreender” é uma canção de Dadi e Marisa Monte sobre o amor que passou, mas continua existindo num outro tempo, imóvel, onde paira a palavra impronunciada, o mito, sendo tudo e nada, e ideias como flores ainda à espera de outra era, ou só da primavera. Tem um verso maravilhosamente ambí-guo: “Não deixe o coração partir.” É a ambivalência de um amor que já era, mas ainda não foi.
“Itinerário” é um samba de Max Viana que fala sobre a espera do amor. Mesmo porque o balneário do Rio de Janeiro não é tão grande, e a gravitação dos corpos no verão faz com que o encontro dos amantes seja inevitável. De quebra, o suingue de Max alicia a conspiração das estrelas em favor de sua paixão.
Martinho da Vila é um dos maiores fornecedores de alegria dos últimos qua-renta anos da música brasileira. Paradoxalmente, em “Reverso da Vida”, ele for-nece a Mart’nália a história mais dramática do CD. “Um homem chorando/ Amores desfeitos.” A súbita explosão da dor e o ritmo seis por oito fazem de “Reversos da Vida”, com seu lirismo trágico, um divisor de águas no CD.
“Serei eu?” é uma bela canção de Ivan Lins, com letra de Zélia Duncan e Mart’nália. Não vou parafraseá-la, caro leitor. Deixo por sua conta e risco a alegria de sua decifração.
“Eu te ofereço” é um samba com a arquitetura inconfundível de Gilberto Gil. A letra parece ser uma proposta indecorosa feita de maneira decorosíssima: “Eu te ofereço facilidades/liberdades que o amor não traz (...) Dou como exemplo o de-sapego/ Fora do templo do meu sossego/ Nas horas vagas por aí.” Uma cantada de primeira classe, que faz lembrar William Shakespeare nos seus melhores mo-mentos.
“Os Sinais, de Junior Almeida, é como um segundo capítulo de “Acelerou”, de Djavan, com direito a citação no título e na harmonia. Adorável.
Um parêntese: creio que é desnecessário dizer que Djavan é um dos criado-res mais notáveis da música brasileira, inventor de uma batida, uma maneira de cantar. Mas é fundamental ressaltar que este CD tem o privilégio da presença de Djavan na direção musical. Isto significa que a cada acorde, cada escolha de can-ção, cada inflexão de palavra, temos a intervenção de sua imaginação musical e de sua visão de mundo. É do encontro entre Djavan e Mart’nália que surge a al-quimia deste CD, engendrado por duas personagens diversas, mas complementa-res, tendo como convergência o dom de encarar a vida como um ato fugaz, e, pa-radoxalmente, perene. Não vou tentar explicar o segredo da mistura, cada lei-tor/ouvinte que proponha a sua tese. Apenas regresso à viagem proposta pelas canções e fecho o parêntese.
“Demorou” é um samba aparentemente simples de Caetano Veloso, em que a expressão em carioquês do título encontra enfim a sua mais completa tradução musical. A sutileza fica por conta do pigue-pongue entre os sotaques do Estácio e do Recôncavo baiano. E talvez Caetano tenha emplacado um novo tema, em meio ao repertório clássico do samba.
“Zero Muito” mostra uma inesperada Mart’nália roqueira. A música, de Nando Reis, tem algumas imagens notáveis, como: “Mas acontece que o amor/ não tem razão, sua raiz/ é uma nação sem ser lugar/ não tem noção: o que ele diz?”
“Vai saber” é um samba engenhoso da engenhosa Adriana Calcanhoto, so-bre as dúvidas da arte de amar. Parece dizer, como um novo René Descartes: “Penso, logo existo? Ou dispenso, logo não existo?” Esplêndido.

Mart’nália sempre teve carisma de estrela. Ou star quality, como se diz no português castiço de hoje. E soube confirmar todas as premissas e promessas nos CDs anteriores, cada qual com sua cara e seu charme. Mart’nália sempre foi bri-lhante e múltipla, como demonstra outra vez neste novo CD, em que ela é fiel ao seu talento e sua multiplicidade. Que os deuses da música a conservem assim.