discografia

Pé do meu samba

Direção: Caetano Veloso
Produção e arranjo: Celso Fonseca
Gravação, edição e mixagem: Renato Aisher
Masterização: Ricardo Garcia / Magic Master
Edição de percussão: Ramiro Musotto
Gravações Adicionais: Celso Fonseca
Assistente de gravação e produção: Thiago Braga
Super Pretas são: Analimar, Ana Costa, Mara Nazareth e Martnália
Gravação e mixagem: Estúdio Geléia entre abril e agosto de 2001
Fotos: Eny Miranda
Produção: Dirú
Maquiagem: Margareth Dantas
Assistente de Maquiagem: Fernando Miceli
Projeto Gráfico: Patrícia Maranhão

faixas

  1. 1 - Filosofia
  2. 2 - Novos tempos
  3. 3 - Samba é tudo
  4. 4 - Mulata no sapateado
  5. 5 - Tempo feliz
  6. 6 - De amor e paz
  7. 7 - Viajando
  8. 8 - Poema do adeus
  9. 9 - Pé do meu samba
  10. 10 - Meiga presença
  11. 11 - Beco
  12. 12 - Molambo
  13. 13 - Chega
  14. 14 - Per Omnia Saecula Saeculorum Amen

Pé do meu samba
(Ricardo Cravo Albim)

Certa vez, o cronista carioca João do Rio acentuou um dos traços mais cativantes do temperamento miscigênico do povo fluminense: a ternura que perpassa entre os diversos núcleos ligados por laços de amizade, ou até de vago conhecimento. São, no frigir dos ovos, os batalhões de "amigos", tão ao gosto da alma alargada e fraterna do carioca.

Essa observação vem a propósito de eu conhecer Mart'nália desde menina, ainda nos braços da mãe, Anália da Vila, uma poderosa cantora que chegou a fazer sucesso no antigo Casa Grande, quando era saudada com entusiasmo pela cronista Eneida. Do pai Martinho, nem se fala. Meu amigo, compadre e irmão de alma desde 1966, ao tempo em que me visitava ainda fardado de sargento, no Museu da Imagem e do Som.

Mart'nália, que começou a se destacar como back-vocal de Martinho da Vila aos 16 anos, sempre demonstrou uma graça toda especial para dançar e cantar samba.

Aqui ela vem produzida por Celso Fonseca e cercada por um naipe de bons músicos, com Jorjão Barreto nos teclados, Arthur Maia no baixo e Ramiro Mussoto na percussão. Esse "sonho" foi dirigido, concebido e supervisionado com paixão por Caetano Veloso.

E isso é muito e muito bom. Além de emocionante para mim, que lhe presenciei os passos iniciais.

O disco - é bom advertir desde logo - não tem nada a ver com o samba de raiz de que Martinho é o grande fetiche e ícone. Este é um disco em que Mart'nália diz "sim" a uma única personalidade: ela própria. Não estaria longe da verdade, se insistisse no caráter autoral do CD. Porque, vejam bem, ela escolheu o repertório que quis, com os músicos que quis. Anteriormente ele foi imaginado como um disco de sambas-canções. Da idéia original ficaram jóias como "AMOR E PAZ" (Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos), "MEIGA PRESENÇA" (Paulo Valdez e Octávio de Moraes), "MOLAMBO" (Augusto Mesquita) e "PER OMNIA SAECULA" (Miguel Gustavo). Depois, MARTNÁLIA fez o disco desabrochar como uma flor abrangente, a que não faltam deliciosos resgates, como "FILOSOFIA" (Noel Rosa), por sinal, vestido com arranjo corajoso e eficaz, ou como "MULATA DO SAPATEADO" (do mestre Ary Barroso), ou ainda como "TEMPO FELIZ" (da melhor fase de Baden e Vinicius) que reporta mais uma vez (depois de "MEIGA PRESENÇA" e "MOLAMBO") à divina Elizeth Cardoso.

Mart'nália vai além, contudo: sapeca, com gosto e competência, coisas novas e de boa qualidade. Aí estão "NOVOS TEMPOS" (Cláudio Jorge) e "SAMBA É TUDO" (Ronaldo Bastos e Celso Fonseca, este também responsável pela produção do disco). Além de duas músicas muito interessantes de sua própria lavra: "BECO" e "CHEGA", ambas em parceria com Mombaça.

E papai Martinho? Calma, ele não poderia mesmo faltar e comparece com o belo "VIAJANDO", em que a cantora o homenageia com sutis pinceladas martinianas no modo de cantar.

Agora, a surpresa (certamente o grande momento do disco que, podem anotar, já nasceu um clássico): "PÉ DO MEU SAMBA", a faixa assinada por Caetano Veloso, escrita especialmente para Mart'nália. Confesso que me comovi ao ouvir esta declaração de amor ao samba, tão simples, despojada e clara como água de fonte de boa procedência. Caetano reitera ali sua maestria e seu apogeu, sua reafirmação como bruxo da MPB.

Este disco, nem sei por que, me faz lembrar - seja pela diversidade faiscante que contém, seja pelo "à vontade" da cantora - os antigos lançamentos em elepê da destemida Nara Leão, à partir de 1964/1965, que sempre iluminaram os caminhos da nova (e também eterna) música que se fazia então.