discografia

Minha Cara

Relançado pela Biscoito Fino, 2010

Produtor musical: Ivan Machado
Produção executiva: Martinho da Vila/ ZFM Records
Gravação, remixagem e masterização: Estúdio Cia dos Técnicos (set/97)
Masterização: Vanius
Eng. de gravação e mixagem: Luis Rodriguês
Assitente de estúdio: Douglas, Neno, Luis Claudio
Assistente de produção: Beatriz P. Lindenberg
Minha Cara, Coleção, Conto de Areia, Calma, Não Me Balança Mais; gravadas no Estúdio Fibra (ago/95)
Técnico de Gravação: Wilian, Ricardo Leão e Linhos
Projeto gráfico e arte (capa): Lucilo Macedo
Fotos: Waldir Barreto (capa), Maristela Martins (j. card e livreto), Ana Sil, J. Egberto, Mart'nália (miolo)

faixas

  1. 1 - Não me balança mais
  2. 2 - Contradição
  3. 3 - Pra que vou recordar o que chorei
  4. 4 - Grande amor
  5. 5 - Conto de areia
  6. 6 - Minha cara
  7. 7 - Coleção
  8. 8 - A flor e o samba / Parei na sua
  9. 9 - Tentação
  10. 10 - Entretanto
  11. 11 - Calma
  12. 12 - O samba é a minha escola

O canto carioca e brasileiro que tem a minha cara
(Mart’nália)

Há 15 anos que sou uma profissional da música. Canto e componho, mas o que me sinto mesmo é músico. Desde menininha foi assim. Estudei piano clássico quatro ou cinco anos. Me dou bem com o violão. E a percussão brasileira para mim não tem segredo. Desde os 17 anos, quando comecei a acompanhar o meu pai, ficou difícil conciliar a vida artística com os estudos. Mas terminei o segundo grau, no ADN do Méier, e cheguei a me inscrever no vestibular de Comunicação. A experiência com o grupo que acompanha Martinho me facilitou as coisas, me ensinou muito - mas a relação pessoal e musical que desenvolvi com os instrumentistas independeu de tudo. Tornei-me amiga e parceira de muita gente e isso já não tinha mais nada a ver com o fato de eu ser a filha do Martinho. Em 1985, gravei meu primeiro elepê, para a 3M, mas admito que talvez ainda não estivesse pronta para uma carreira solo. Aliás, tanto quanto os anos em que fiz vocais para o meu pai, o período em que me tornei a principal vocalista do Batakotô também me trouxe muita segurança e muito incentivo para encarar o desafio da carreira individual. Músicos como Cláudio Jorge, Ivan Machado, Itamar Assiére, Jorjão Barreto e Arthur Maia, para citar só alguns, não iam me dar tanta força, compor comigo, só por ser meu pai quem é. Aliás, este Minha Cara começou quase como uma brincadeira minha com o Ivan. Íamos juntos para o estúdio e ficávamos experimentando coisas, concepções musicais que não tinham nada a ver com o trabalho de Martinho da Vila. Até que entendemos que o que era simplesmente lazer e prazer podia ser transformado num projeto profissional. Não se pense, no entanto, que estou minimizando a importância do meu pai no meu estilo ou na minha vida. Pareço com ele, tenho o jeito dele - às vezes em que tentei ir contra essa minha natureza, senti-me ridícula. Então, resolvi assumir. Sou filha dele e isso é mais que evidente, só que ele tem vários outros filhos e nenhum é assim. Agora, o que quero é que prestem atenção no que estou fazendo, que é muito brasileiro e carioca, mas traz as influências do jazz e do funk que eu frequentava em Pilares, da MPB que eu ouvi sempre. As levadas, os arranjos, tudo reflete essa mistura. Obviamente, isso não desmerece as horas maravilhosas em que me extasiei com os pagodes na casa do Candeia, aos quais meu pai me levava pela mão, nem a eterna saudade que sinto de Clara Nunes.

MINHA CARA, O DISCO

NÃO ME BALANÇA MAIS - É uma parceria com a psicóloga Viviane Mosé Num belo dia, ela me mostrou uma carta enorme que escreveu para um namorado. A carta tinha aquelas redundâncias que a gente comete quando está muito envolvida emocionalmente. Aí, comecei a resumir, com ela, o que a carta dizia. De repente, me veio o refrão. Peguei o violão e saiu: "e você já não mais me balança/e você não me balança mais, não."

CONTRADIÇÃO - Também em parceria com Viviane Mosé, focaliza a ambiguidade das relações amorosas. A indecisão entre a necessidade de ir embora e a vontade de ficar. Reparem na delizadeza da gaita do Rildo Hora, outro com quem aprendi muito.

CALMA - Acabou ficando com este nome por causa do tempo que eu demorei para colocar a letra. Arthur Maia, grande baixista, me deu a música e o recado custou, mas saiu: "a liberdade é um pouco de tudo o que nos satisfaz".

ENTRETANTO - De vez em quando, nas noites do Rio, cruzava com o Mobaça e ele cantava sempre essa música. Dizia para ele: "ainda vou gravar isso, mas queria que a gente mexesse um pouco na letra". Quando chegou a hora, cumpri a promessa. Liguei, quis que a gente mexesse junto - mas ele preferiu me deixar a vontade para fazer as alterações. Foi assim que fiquei parceira dele.

O SAMBA É A MINHA ESCOLA - No ano passado, meu primeiro como integrante da Ala de Compositores da Vila, tornei-me semifinalista com esta parceria com Claudio Jorge, Agrião e Paulinho da Aba. O enredo era Não Deixe o Samba Morrer e, como nenhum samba perdedor pode usar o título, rebatizei-o. Meu pai, desclassificado junto comigo, também gravou o dele, com o nome de Prece ao Sol.

COLEÇÃO - Esta música é do Cassiano, soulman brasileiro injustamente esquecido, e embalou muito a minha adolescência. Ela também é a minha cara.

PRA QUê RECORDAR? - De Carlos Dafé. Está no mesmo caso da música do Cassiano. É outra música que me leva de volta aos tempos da infância e da adolescência.

UM GRANDE AMOR - Das mais de trezentas músicas gravadas do meu pai, é uma das que mais gosto. Pela beleza da melodia, pelo encadeamento dos versos.

MINHA CARA - Foi a minha admiração pela Nana Caymmi que me levou ao Dudu Falcão. Ouvia a Nana e sempre tinha algo do Dudu lá, o que aguçava mais a minha curiosidade. Nos tempos do Batakotô, pude afinal conhecê-lo e, agora, tive o privilégio de ganhar dele a música que dá titulo ao CD.

CONTO DE AREIA - De Toninho Nascimento e Romildo, criação inesquecível de Clara Nunes. E o axé da Clara não podia estar ausente deste meu trabalho.

A FLOR E O SAMBA - Talvez a melhor definição que eu conheça do que seja o samba. Melodia densa, versos diretos e claros. Candeia em estado puro: "o samba é a liberdade sem sangue e sem guerra/quem samba é de boa-vontade e tem paz nessa terra". Detalhe: a bateria é do Paulinho Black e Ovídio dá um banho na percussão leve.

PAREI NA SUA - O estilo do meu pai amadureceu muito, mas eu adoro os sambas bem simples e diretos que ele fazia quando começou. Como esse. O engraçado é que as gírias que ele usa aqui quase ninguém fala mais, mas ele usou-as tão bem que a linguagem do samba se mantém atual e o recado permanece.

Depoimento a ROBERTO M. MOURA (Jornalista, crítico musical, professor-adjunto da Faculdade Hélio Alonso e apresentador do "Studio Jazz", da TVE)